Castelo de Lichtenstein

Castelo de Lichtenstein
Castelo de Lichtenstein

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Carol Cacau, Pedra da Luz - parte 5

Depois de uma semana perdida na escola, com a cabeça no meu suposto dom, nenhuma concentração nos estudos e já com ódio de tanto tentar falar com livros feito uma louca, passei por um momento realmente apavorante.

Foi no caminho da escola para casa.  Preferi ir andando para relaxar um pouco, como se fosse possível. Foi quando vi que estavam demolindo uma casa que sempre achei linda na Avenida Santos Dumont. Fiquei arrasada. Quantas vezes não havia passado em frente a ela, imaginando que histórias maravilhosas ou tenebrosas não aconteceram por lá?  Eu lembrava de vários livros que contam histórias de gerações de famílias vivendo em uma mesma residência. A casa me encantava com sua cor de açafrão suave, dois pavimentos, várias janelas, cadeiras de balanço na varanda, tão singular em meio à modernidade de prédios comercias com suas fachadas de vidro. Agora, sem dó, estava indo ao chão.

Me aproximei de alguns homens que pareciam engenheiros ou mestres de obras que estavam do outro lado da rua, apreciando o espetáculo da demolição. Não me contive. Sem conseguir controlar o meu lado perguntador, que já me meteu em muitas encrencas, comecei a questionar: “Com licença, senhores. Esta casa não estava em processo de tombamento? O IPHAN foi consultado? Vocês tem autorização judicial? Não havia outra solução como, por exemplo, apenas adaptar a casa para uma nova finalidade?”

Enquanto fazia estas perguntas, os homens me olharam com antipatia e desprezo. O mais alto deles baixou bem a cabeça para poder me encarar e... Juro! Vi uma sombra em seus olhos, como se fosse uma nuvem escura atravessando primeiro um olho, depois o outro, em sequência. Foi apenas um segundo, mas juro que vi. Os outros dois homens trocaram um olhar de compreensão e se afastaram. O grandão aproveitou que eu estava tremendo toda e falou baixinho: “Eu sei o que você é. Nós sabemos. Agora que a encontramos, não há como escapar, não há como nos vencer. Desistam!” E foi embora na maior calma.


Ainda tremendo, decidi que já era hora de saber tudo sobre mim. Afinal, é sobre mim, não é? Tenho meus direitos! Ah, agora o Tio Alberto vai ter que parar de bancar o Mestre dos Magos ou o Dumbledore! Me aguarde Tio Alberto. Você vai ver como uma adolescente de 13 anos consegue o que quer. Pior ainda, como Carol Cacau consegue o que quer.

De Nilza Silva

sábado, 20 de julho de 2013

Carol Cacau, Pedra da Luz - Parte 4


Fiz um monte de perguntas, mas Tio Alberto foi irredutível: “Você precisa refletir sobre tudo o que ouviu. No momento certo, conversaremos mais”. Fiquei indignada, mas nenhum apelo deu resultado.

Entrei no meu quarto batendo a porta e só consegui pensar nisso, no meu dom. As provas de segunda-feira já eram. Será que eu tinha mesmo esse dom? Peguei um dos meus livros preferidos, As Viagens de Gulliver e, com o coração acelerado, respirei fundo e disse o abracadabra da Familia Licht: “Fale comigo” e... nada! Me concentrei mais e tentei de novo. Nada! Respirei profundamente, como assisti nos filmes e... Nada!

Se eu já estava indignada, agora estava revoltada. O orgulho falou mais alto e eu pensei: “Pelo menos essa vantagem eu poderia ter, tiraria 10 em todas as provas brincando”.
Parei tudo e foi recarregar as baterias com duas – eu disse duas – barras de chocolate. Deixando o chocolate derretar na boca, consegui me acalmar e raciocinar. Pensei sobre a minha família, nas festas que mais pareciam congressos do tipo vamos-discutir-sobre-tudo-e-partilhar-tudo-o-que-aprendemos. Nós, os Licht... 

Parei de repente, mal podia respirar. Lembrei que o nosso nome, Licht, é a forma reduzida de Lichtenstein, que significa “pedra da luz” em alemão. Lembrei de meu pai contando histórias sobre o castelo na Alemanha que existe de verdade e é chamado hoje de “O Castelo da Cinderela”. 
Pedra da luz... Seria eu, Carol Cacau, viciada em chocolate, uma pedra da luz? Se eu for a pedra da luz, quem seria a escuridão?

De Nilza Silza

Carol Cacau, Pedra da Luz - Parte 3


Precisei me sentar, pois minha cabeça girava e eu esperava o Tio começar a rir de mim e dizer: "Te peguei!" 
Mas ele continuou falando bem sério: "Carol, nossa familia, os Licht, sempre fomos defensores e divulgadores do saber. Somos pesquisadores, cientistas, escritores, artistas, fundamos universidades, museus e galerias de arte. Mas de onde vem esse dom que você acabou de ver? Não sabemos. Sabemos, apenas, que o primeiro Leitor, assim nós somos chamados, que surgiu viveu no Castelo de Lichteinstein, na Alemanha. Vamos andar mais um pouco?". 
Fomos para o setor de Literatura Infantil, pois sempre havia alguma contação de histórias e eu adorava mas, naquele dia, só havia uma senhora sentada no chão, lendo um livro para os netos. 
Perguntei: "Mas Tio, isso é bom, não é? Como funciona?"
Sorrindo, ele respondeu: "Bom, primeiro você precisa irradiar respeito e amor pelo livro e abrir seu coração e mente para ele. Depois diga as palavras Fale Comigo. Aí, o livro irá te transmitir todo o seu tesouro em poucos segundos, não importa em que idioma ele for escrito".
Depois, ele ficou muito sério e continuou: "Minha querida, lembre-se esse dom é lindo e seja sempre grata por recebê-lo, mas ele traz problemas também".
"Novidade! - pensei - por que tudo para mim é sempre complicado?"
Depois de dar um suspiro, Tio Alberto prosseguiu: "Nós temos aliados em todo o mundo, mas temos inimigos poderosos também".
Pensei em dizer que não queria mais saber de nada. Eu já era desastrada e confusa sem essa novidade. Mas a curiosidade me pegou de jeito. Afinal, quem poderia ser contra a difusão de conhecimento?


De Nilza Silva

Carol Cacau, Pedra da Luz - Parte 2


Repito: saiu uma luz das páginas do livro e foi direto para a cara do meu Tio Alberto. Ele fechou os olhos e ficou uns instantes com um sorrisinho como se estivesse pegando um bronzeado na praia. Eu, estátua do lado dele. Depois ele fechou o livro calmamente, levantou e disse: "Carol, feche a boca e venha passear comigo".

Fomos para a varanda da Biblioteca Pública que fica de frente para o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Quando nos apoiamos na amurada, ele disse: "Sim, o que você viu é real e acredito que você também pode fazer". Finalmente, consegui relembrar como se fala e perguntei: "Mas o que foi que você fez, tio?" 

Olhando para o Centro Cultural, ele respondeu: "Minha querida, o nosso amor pelo conhecimento é conhecido, porém, nós, da familia Licht, temos uma relação muito especial com os livros. A cada geração, um de nós nasce com o dom de conversar com os livros de uma forma bem particular e eu acho, nesta geração, o escolhido é você".

Você pode achar que eu fiquei super empolgada, mas admito que na hora o que eu pensei foi: "Ai, ai, agora, além de ter duas provas na segunda de Física e Geografia, ainda sou a escolhida? Ninguém merece!"

de Nilza Silva

Carol Cacau, Pedra da Luz - Parte 1

Carol Cacau, Pedra da Luz
Sempre achei que não me encaixava, mas lia que era normal, que todo adolescente passa por isso. Eu me perguntava: “Tá. Ter um cabelo com vida própria, que a cada dia amanhece de um jeito diferente, mas nunca, nunca, do jeito que eu sempre quis; ser a única da turma que vive devorando livros; ficar meio fora do ar de vez em quando; nunca achar um jeans que fique legal em mim e ser viciada em chocolate me faz normal? Então tá”. Ah, o meu nome não é Carolina Cláudia, não. Você pode ter pensado isso por causa do Cacau no meu nome, não é? Todo mundo acha. Imagina como seria esquisito. Devo esse presente de grego à Juli, que começou a me chamar assim devido ao meu vicio por chocolate. Ela me botou o apelido e ele nunca mais saiu. Que jeito. 


O problema é que, agora, a minha esquisitice parece fazer sentido. Talvez, isso devesse ser um alívio, mas, do meu ponto de vista, ficou tudo pior. A história de como minha adolescência quase normal virou um filme de suspense começou quando o Tio Alberto chegou de sua interminável viagem (ele é uma espécie de nômade profissional, depois eu explico) e me convidou para um passeio. Local? Biblioteca Pública de Fortaleza.

Depois de conversarmos um pouco sobre os livros nas prateleiras, como sempre fazíamos, Tio Alberto pegou um livro e me levou para uma mesa mais no canto, fora do campo de visão dos demais frequentadores. A bibliotecária estava concentrada em suas palavras cruzadas e um rapaz, provavelmente estudando para concursos, dormia sobre os livros. Após abrir o livro em uma página qualquer, Tio Alberto sussurrou bem próximo da enciclopédia que tinha nas mãos: “Fale comigo.” Neste momento, o livro passou a emitir uma luz branca em direção ao rosto do meu Tio. Meu queixo caiu, fiquei congelada no lugar e só consegui pensar: “Agora eu vou para o hospício de vez”.

de Nilza Silva.