Sempre achei que não me encaixava, mas lia que era normal, que todo adolescente passa por isso. Eu me perguntava: “Tá. Ter um cabelo com vida própria, que a cada dia amanhece de um jeito diferente, mas nunca, nunca, do jeito que eu sempre quis; ser a única da turma que vive devorando livros; ficar meio fora do ar de vez em quando; nunca achar um jeans que fique legal em mim e ser viciada em chocolate me faz normal? Então tá”. Ah, o meu nome não é Carolina Cláudia, não. Você pode ter pensado isso por causa do Cacau no meu nome, não é? Todo mundo acha. Imagina como seria esquisito. Devo esse presente de grego à Juli, que começou a me chamar assim devido ao meu vicio por chocolate. Ela me botou o apelido e ele nunca mais saiu. Que jeito.
O problema é que, agora, a minha esquisitice parece fazer sentido. Talvez, isso devesse ser um alívio, mas, do meu ponto de vista, ficou tudo pior. A história de como minha adolescência quase normal virou um filme de suspense começou quando o Tio Alberto chegou de sua interminável viagem (ele é uma espécie de nômade profissional, depois eu explico) e me convidou para um passeio. Local? Biblioteca Pública de Fortaleza.
Depois de conversarmos um pouco sobre os livros nas prateleiras, como sempre fazíamos, Tio Alberto pegou um livro e me levou para uma mesa mais no canto, fora do campo de visão dos demais frequentadores. A bibliotecária estava concentrada em suas palavras cruzadas e um rapaz, provavelmente estudando para concursos, dormia sobre os livros. Após abrir o livro em uma página qualquer, Tio Alberto sussurrou bem próximo da enciclopédia que tinha nas mãos: “Fale comigo.” Neste momento, o livro passou a emitir uma luz branca em direção ao rosto do meu Tio. Meu queixo caiu, fiquei congelada no lugar e só consegui pensar: “Agora eu vou para o hospício de vez”.
de Nilza Silva.
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